Este texto é informativo e não substitui uma avaliação psicológica ou médica individualizada.
Às vezes, não é apenas o que pode acontecer que nos provoca ansiedade. É o medo do que vamos sentir se aquilo acontecer.
Medo de ficar triste. De sentir saudade. De se decepcionar. De não conseguir lidar com uma perda ou com uma mudança.
E, na tentativa de evitar essas emoções, podemos acabar evitando também experiências e decisões importantes.
Quando o medo não é da situação, mas do sentimento
Imagine alguém que deseja terminar um relacionamento, mas não consegue tomar essa decisão.
Essa pessoa pode reconhecer que a relação já não faz sentido, que gostaria de seguir outro caminho e que permanecer ali também traz sofrimento.
Mesmo assim, a possibilidade de sentir tristeza, solidão ou saudade parece assustadora demais.
Então, ela adia.
Tenta encontrar mais uma justificativa para esperar, mais uma garantia de que ficará bem, mais alguma forma de evitar o sofrimento que imagina sentir.
Nesse caso, o medo não está apenas na mudança.
Está também nas emoções que podem acompanhar essa mudança e na incerteza sobre como será a vida depois.
Isso não significa que terminar seja necessariamente a decisão correta. Existem muitos fatores envolvidos em um relacionamento, e eles precisam ser considerados.
O exemplo ajuda a perceber como, em algumas situações, o desejo de evitar emoções difíceis pode influenciar nossas escolhas.
O que acontece quando tentamos não sentir?
Ninguém gosta de sofrer.
É compreensível desejar que emoções desagradáveis desapareçam o mais rápido possível.
Mas a tentativa constante de evitar, controlar ou afastar experiências internas pode acabar restringindo a vida.
Na Psicologia, esse processo é conhecido como evitação experiencial.
Ele acontece quando tentamos fugir de pensamentos, emoções, lembranças ou sensações, mesmo que isso tenha consequências importantes para aquilo que desejamos viver.
Por exemplo, alguém pode evitar uma conversa necessária por medo de sentir culpa.
Pode deixar de conhecer pessoas por medo da rejeição.
Ou pode adiar uma decisão porque não suporta a possibilidade de arrependimento.
Em todas essas situações, a tentativa de se proteger de um sentimento pode acabar produzindo outras dificuldades.
Isso não significa que devemos buscar sofrimento ou nos colocar em qualquer situação desconfortável.
Significa reconhecer que nem sempre conseguimos construir uma vida significativa evitando todas as experiências emocionais difíceis.
Aceitar emoções não significa gostar delas
A palavra aceitação costuma provocar confusão.
Às vezes, imaginamos que aceitar algo significa concordar com aquilo, aprová-lo ou desistir de mudar.
Mas aceitar uma emoção não é o mesmo que gostar dela.
Podemos reconhecer a tristeza sem desejar estar tristes.
Podemos sentir medo e, ainda assim, avaliar o que queremos fazer.
Podemos acolher a saudade sem concluir que precisamos voltar para uma situação que não desejamos mais viver.
A aceitação envolve reconhecer a experiência que está acontecendo, em vez de gastar toda a nossa energia tentando negar sua existência.
Em outras palavras: não precisamos gostar do que sentimos para admitir que estamos sentindo.
E o que é aceitação radical?
A ideia de aceitação radical, trabalhada especialmente na Terapia Comportamental Dialética (DBT), parte do reconhecimento de que as coisas são como são neste momento.
Aceitar radicalmente é acolher a realidade como ela se apresenta, mesmo quando ela é dolorosa, frustrante ou diferente daquilo que gostaríamos.
Isso não significa considerar a realidade justa.
Também não significa desistir de transformá-la.
Às vezes, reconhecer o que está acontecendo é justamente o que permite avaliar com mais clareza o que precisa mudar.
Quando insistimos que algo não poderia estar acontecendo, podemos acrescentar uma luta constante contra um fato que já faz parte da realidade.
Reconhecer esse fato não elimina automaticamente a dor.
Mas pode diminuir o esforço de lutar contra a própria existência da experiência.
Sentir, expressar, processar e deixar seguir seu rumo
As emoções não precisam ser tratadas como problemas que exigem eliminação imediata.
Elas fazem parte da maneira como respondemos ao mundo, às relações e aos acontecimentos da vida.
Em algumas situações, precisamos permitir que uma emoção exista.
Em outras, precisamos encontrar maneiras de expressá-la, compreender o que ela comunica ou buscar apoio.
Podemos sentir tristeza por uma perda, conversar sobre ela, reconhecer o que aquela experiência significa e, aos poucos, seguir vivendo.
Podemos experimentar medo diante de uma mudança, avaliar os riscos e decidir como agir.
O processo não acontece necessariamente em etapas rígidas, nem existe um prazo certo para cada emoção.
Mas é importante lembrar que sentir uma emoção não significa ficar preso a ela para sempre.
Às vezes, permitir que ela esteja presente faz parte de aprender a lidar com a experiência.
Aceitar o que sinto não significa aceitar o que me faz mal
Existe uma distinção essencial.
Aceitar que estamos sentindo medo, tristeza ou raiva não significa que precisamos permanecer em relações abusivas, tolerar violência ou aceitar situações de desrespeito.
Também não significa que o sofrimento causado por discriminação, insegurança ou sobrecarga deva ser resolvido apenas por meio de uma mudança na maneira de pensar.
As emoções podem sinalizar necessidades importantes e riscos reais.
Por isso, acolher a experiência emocional também envolve considerar o contexto em que ela aparece.
Às vezes, o cuidado necessário é aprender a lidar com o desconforto de uma situação segura que estamos evitando.
Em outros momentos, o mais importante pode ser buscar proteção, apoio ou mudanças concretas nas circunstâncias de vida.
Aceitação emocional e ação não são opostas.
Podemos reconhecer o que sentimos e, ao mesmo tempo, agir para modificar aquilo que precisa ser modificado.
O medo de sentir pode limitar a vida
Quando acreditamos que não conseguiremos suportar determinada emoção, podemos começar a organizar nossas escolhas em torno da tentativa de evitá-la.
Deixamos de conversar, decidir, experimentar, mudar.
Esperamos ter certeza de que não vamos sofrer antes de dar um passo.
Mas essa certeza nem sempre é possível.
Viver envolve alguma exposição à frustração, à incerteza, às perdas e às mudanças.
Isso não significa que precisamos enfrentar tudo sozinhos.
Também não significa que toda situação difícil deve ser mantida.
Significa reconhecer que o sofrimento emocional não pode ser completamente eliminado da experiência humana.
E que, às vezes, a tentativa de não sentir acaba nos afastando também daquilo que é importante.
Como a psicoterapia pode ajudar?
Na psicoterapia, podemos investigar como a pessoa se relaciona com as próprias emoções e de que maneira o medo de senti-las influencia suas escolhas.
Isso pode envolver compreender padrões de evitação, desenvolver formas mais flexíveis de lidar com pensamentos e sentimentos e construir possibilidades de ação coerentes com seus valores e circunstâncias.
A Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT), por exemplo, trabalha processos relacionados à aceitação das experiências internas, à desfusão cognitiva e à flexibilidade psicológica.
Esses recursos podem ser integrados a um trabalho fundamentado na Terapia Cognitivo-Comportamental e na Psicologia Baseada em Evidências, conforme as necessidades de cada pessoa.
O objetivo não é ensinar alguém a suportar qualquer situação.
É ampliar as possibilidades de lidar com as experiências emocionais sem perder de vista a própria história, os valores e as condições de vida.
Conclusão
Sentir faz parte de viver.
Nem todas as emoções serão agradáveis. Algumas nos atravessam de maneiras difíceis, exigem tempo, cuidado e apoio.
Mas tentar evitar qualquer tristeza, medo, saudade ou frustração pode acabar restringindo nossas escolhas.
Aceitar uma emoção não significa gostar dela, concordar com tudo o que acontece ou abrir mão de mudanças.
Significa reconhecer que a experiência está presente e que podemos aprender a nos relacionar com ela de outras maneiras.
Talvez não seja possível construir uma vida sem emoções difíceis.
Mas é possível buscar uma vida em que o medo de senti-las não precise decidir tudo por nós.
Se você percebe que o medo de sentir tem influenciado suas decisões e limitado experiências importantes, a psicoterapia pode ser um espaço para compreender essa relação com as emoções.
No meu trabalho com psicoterapia online, busco integrar intervenções fundamentadas cientificamente a uma escuta que considera a singularidade e o contexto de cada pessoa.
Referências para aprofundamento
- Hayes, S. C., Strosahl, K. D. e Wilson, K. G. (2012). Acceptance and Commitment Therapy: The Process and Practice of Mindful Change. Guilford Press
- Linehan, M. M. (2015). DBT Skills Training Manual. 2ª edição. Guilford Press
- Association for Contextual Behavioral Science. About ACT